Como reconhecer uma literatura ao vê-la
Quando não sei o que sinto
sei que o que sinto é o que sou
Minha vontade não cria: decifra
Gruda em tudo
mas não cola em nada
Se comigo coincido
de mim logo suspeito:
sei que um dos dois é fingido
Sei que o que piso é meu chão
Onde não há chão normal
Mas o que sabe e o que sente
se revelam misteriosos
E o que escreve é o que mais mente
Pois onde me delimito
já não sou mais o que sou
mas tão somente me imito
Penetrável labirinto
mas apenas me pressinto
em cujo centro não estou
O mapa de onde não vou
De ponto a ponto rabisco
ligando de risco em risco
meus equívocos favoritos
Tudo que sou é um acúmulo de escritos
Mero signo, simples mito
Minha vontade é o que vivo
Só isso: dou um golpe de verbo
Livro vivo. É isso.
E quando quero o que não quero
Sei que estou vivo
E não desespero
Porque não consigo dizer
a verdade esquiva e impura:
a verdade não é literatura
Porém a verdade sentida e pura
Essa também é só literatura
Li-te-ra-tu-ra
Cláudio Laureatti
Luz e poesia
Atenção
Agora
Luz em mim
Eu sou você
Vim aqui pra me outrar
Ser outro
Igual a você
Estes livros não são meus
Esta cesta de livros não é sua
Esta cesta é nossa
além do sábado domingo e feriado
Atenção
Agora
Luz total na cesta
Não tem nenhum vínculo
com ninguém acima da Revolução
Pra cima com a Revolução
Ocupa ocupa ocupa Ocupação
Agora
Luz em você
Muita luz
Luz
Poema tirado de uma notícia de jornal
Poema tirado de uma notícia de jornal
"Amarildo de Souza pedreiro levado para a sede
da Unidade Pacificadora de Polícia da Rocinha
Com família
Polícia no apetite não respeita nada
Entrou na viatura
Pele preta feito a noite
Virou estatística
Depois se atirou em cemitérios cladestinos ou
afundou no Rio da Paz"
(Claudio Laureatti)
Eis o poema-releitura do clássico de Manuel Bandeira chamado “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Quem conhece o poema original de onde partiu essa paródia atente-se para o paralelismo verso a verso dessa releitura e curta muito mais, é claro!
Canção do exílio
Minha terra tem a Escada Vermelha
onde cantam a Internacional
Os políticos tem medo de voltar pra Maceió
em Brasília não me deixem só
No céu metáforas visuais de Niemeyer
Nas várzeas sapos parnasianos e mais futebol
Nossos saraus tem mais vida
Nossa vida mais saraus
Cá, sozinho à noite,
mais camaradas eu encontro lá
Minha terra tem a Escada Vermelha
onde cantam a Internacional
Minha terra tem a Escada Vermelha
Tupis não encontro eu cá
Em Pasárgada sozinho à noite
mais prazer encontro eu lá
Minha terra tem a Escada Vermelha
onde cantam a Internacional
Não permita Deus que eu morra
sem que eu volte de Pasárgada
sem que desfrute da mulher que eu quero
que não encontro por cá
sem qu'inda aviste a Escada Vermelha
onde cantam a Internacional
Passe Livre Já!
"Na primeira noite eles se aproximam...
e aumentam a passagem em 20 centavos...
E você vê a gente fazendo protestos na TV...
Na segunda noite já sabemos o que vem por aí...
Te ensinam preconceitos...
você acha que estudantes são parasitas que vivem a protestar de barriga cheia...
E você nos vê sendo presos pela TV...
Até que um dia...
O mais (fr)ágil deles...
entra em sua casa com a polícia....
rouba seus olhos
que não querem enxergar verdades explícitas...,e,
conhecendo sua ignorância política
arranca sua voz,
nem tanto pela tarifa,
mas sim pela programação ruim da televisão...
E o que você vai fazer?
Gritar que comunista tem que apanhar?
E que bater em mulher de vez em quando vai bem?
Ou que ser gay não é seu sonho além de ser coisa do demônio?
Ou vestir sua camiseta 100% Branco e apresentar seu apoio inteligente no destino de verbas públicas para o salvamento de empresários e bancos ? Ou que melhor que comprar vinagre pra se proteger dos gases da PM é aproveitar aquela oferta da hora de calça da moda por mais de 300 reais?
Aliás, é só R$ 3,20 e nada mais...
(Releitura de Claudio Laureatti, do poema "No caminho com Mayakovsky" de Eduardo Alves da Costa.
Claudio Laureatti é do Coletivo Sarau da Cesta).
Poema Nascente
Vejo no seu coração o sol do amanhã
Sol nascente
Nascente
Tire seus poemas das gavetas
Seus quadrinhos das pranchetas
Faça sua exposição fotográficaApresente sua música
Aos nossos ouvidos
Seu teatro
Aos vivos
Pinte o set e a oitava maravilha
Contra a linha dura a linha da cintura
Dance dance dance até raiar o dia
Vejo no seu coração o sol da manhã
Sol nascente
Nascente ! ! !
CLAUDIO LAUREATTI
Até quando você vai ficar em silêncio ?
Primeiro levaram os estudantes da ocupação
mas achei que tinham muitas diferenças políticas
Eu vi salas depredadas e bombas caseiras pela televisão
Em seguida abordaram alguns contratados terceirizados
Aí achei a situação uma calamidade
Eu vi muito lixo espalhado pelos corredores da faculdade
Depois prenderam os drogados
Não achei que fosse o caso assinar uma moção de repúdio
Porque eu não uso álcool, cigarro, sexo ou drogas
Depois agarraram um visitante
Mas como porto crachá e carteirinha
não me importo
Agora estão me levando
Mas já é tarde
Como não tenho uma flor para colocar no fuzil
Ninguém se importa comigo
Sarau do Metrô convida Sarau da Cesta
Estação Poesia: Sarau do Metrô na estação Santa Cecília convidou Sarau da Cesta, em sua nona edição, dia 30 de março, terça-feira às 18h . Nome na lista, poetas chamados, comungamos a palavra
Os trabalhadores de Moscou tomam posse do grande metrô em 27 de Abril de 1935
Assim nos disseram: 80.000 mil trabalhadores
construíram o metrô, muitos após dias de trabalho
frequentemente varando a noite. Durante este ano
viam-se rapazes e garotas a sair das galerias
sorridentes mostrando orgulhosos as roupas de trabalho
sujas de lama, molhadas de suor
Todas as dificuldades-
correntes subterrâneas, pressão dos edifícios
Massas de terra que cediam- foram vencidas.
Na ornamentação não se poupou esforço. O melhor mármore foi trazido de longe, as mais belas madeiras trabalhadas com apuro. Quase sem ruído corriam por fim os belos vagões.
Pelas galerias claras como o dia: para clientes exigentes
o melhor de tudo.
E quando o metrô estava construído, segundo o mais perfeito figurino, vieram os proprietários para visitá-lo
e nele viajar: eis que eram os mesmos
que o haviam construído.
Eram milhares que circulavam observando os grandes ambientes, e nos trens passavam massas de gente - os rostos-
Homens, mulheres e crianças, também velhos
voltados para as estações, radiantes como no teatro, pois as estações eram construídas de maneiras diferentes, de diferentes pedras, em diferentes estilos, e também a luz tinha fontes diversas. Quem entrava nos vagões eram empurrado para trás numa alegre confusão pois os lugares dianteiros eram os melhores para olhar as estações. Em cada estação as crianças eram erguidas nos braços. Sempre que possível os passageiros irrompiam dos carros e observavam com olhos críticos e felizes o trabalho feito.
Apalpavam as colunas e avaliavam sua lisura,
Com os sapatos sentiam o chão, a ver se as pedras estavam bem ajustadas. Refluindo de volta aos vagões examinavam o revestimento das paredes e tocavam nos vidros, Continuamente homens e mulheres-incertos de serem realmente aqueles - apontavam lugares onde haviam trabalhado: a pedra tinha os vestígios de suas mãos.
Cada rosto era bem visível, pois havia luz bastante de muitas lâmpadas, mais do que em qualquer metrô que conheci.
Também as galerias eram iluminadas, não havia um metro de trabalho sem iluminação. E tudo aquilo fora construído em apenas um ano e por tantos construtores como nenhuma outra via férrea do mundo. E nenhuma outra tivera tantos proprietários. Pois esta maravilha de construção testemunhava o que nenhuma das anteriores,
em muitas cidades de muitas épocas havia testemunhado:
os próprios construtores como senhores!
Onde jamais se vira isso, que os frutos do trabalho tocassem a quem havia trabalhado? onde jamais não foram expulsos de uma construção os que a haviam erguido? Ao vê-los viajarem em seus carros, obra de suas mãos, nós o sabíamos: esta é a visão que certa vez abalou os Clássicos que a predisseram
Bertold Brecht